Acupuntura

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A Dra. Helena Campiglia é médica e clínica geral formada pela USP, trabalha com acupuntura e medicina chinesa há 15 anos e dá aulas de Acupuntura na Associação Médica Brasileira e no Hospital do Servidor Público Estadual. Autora dos livros Psique e Medicina Tradicional Chinesa (Roca, 2004) e O Domínio do Yin: da Fertilidade à Maternidade na Medicina Tradicional Chinesa (Roca, publicação prevista para segundo semestre de 2009).

RA: Como a medicina chinesa vê doenças em geral e as doenças reumatológicas em especial?

Dra. Helena: Segundo a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) as doenças reumatológicas são fruto da diminuição da “energia de defesa” chamada de Wei Qi e do ataque sucessivo de patógenos externos chamados de vento-frio, vento-calor e vento umidade que pouco a pouco vão se instalando nas articulações. Com o passar do tempo, existe um alojamento permanente desse “vento” e as crises podem ser desencadeadas sem fatores externos predisponentes. A circulação da energia (Qi) fica bloqueada principalmente a nível articular gerando dores e rigidez. Por outro lado, existe uma alteração de imunidade cada vez mais pronunciada levando, em última análise, a uma desvitalização.

Observa-se, na maior parte dos pacientes, a presença de um desequilíbrio energético de três elementos: o elemento água, responsável pela vitalidade do indivíduo, o elemento terra responsável pela nutrição do organismo e também das articulações e o elemento madeira que, quando desequilibrado, gera as inflamações articulares (por presença de calor). Os elementos madeira e água são juntos responsáveis pela imunidade do corpo. O elemento terra é o maior responsável pelo acúmulo de umidade que causa a rigidez articular e as dores tipo “em peso”.

RA: Há alguma diferença (ou semelhança) entre as diferentes doenças reumatológicas do ponto de vista da medicina chinesa?

Dra. Helena: As doenças reumatológicas na Medicina Tradicional Chinesa (MTC) são genericamente chamadas de “Síndrome Bi“, que quer dizer, síndrome da obstrução dolorosa. Acredita-se que a maior parte das doenças reumatológicas obedeçam ao padrão de adoecimento descrito acima, porém existem variações, como por exemplo, a fibromialgia, que costuma ter um comprometimento maior do elemento madeira (fígado, músculo, tendões) e a artrite reumatóide, que costuma afetar mais o elemento água (imunidade, vitalidade). Outra questão fundamental é que, na MTC, avalia-se em primeiro lugar o paciente e seus desequilíbrios, e só em segundo plano a doença em si. Dois pacientes com lúpus eritematoso sistêmico podem apresentar dois padrões diversos de acometimento segundo a MTC.

RA: Qual o papel da acupuntura nestas doenças? A Dra. faria algo além, ou ao invés de acupuntura em alguma situação específica?

Dra. Helena: A acupuntura e a fitoterapia (uso de plantas medicinais) são os pilares da MTC e através delas tratam-se todas as doenças reumatológicas, com maior ou menor grau de resposta. Alguns pacientes podem apresentar remissão completa dos sintomas, enquanto outros se beneficiam pouco desses tratamentos. A resposta depende do grau de acometimento da chamada “energia vital”, que quanto mais danificada, pior será a resposta.

RA: Em que situações a acupuntura dispensa o tratamento alopático, ou pelo menos pode ser o tratamento inicial?

Dra. Helena: A acupuntura dispensa o tratamento alopático quando há remissão completa da doença. Caso contrário, é necessário associar as duas formas terapêuticas. Pode-se iniciar com a acupuntura e após 5 sessões avaliar seus resultados. Quando o resultado é positivo (diminuição de sintomas) deve-se prosseguir o tratamento e avaliar se é ou não necessária a associação da alopatia. Em pacientes que já estejam se tratando pela alopatia, observa-se se com a acupuntura é possível ou não diminuir a dose das medicações (por exemplo analgésicos). O controle não só dos sintomas, mas também de outros parâmetros laboratoriais (como o VHS, proteína C reativa, etc.) são fundamentais na decisão se a acupuntura será ou não o único tratamento de base. Portanto, ainda que a resposta ao tratamento pela MTC seja satisfatória, oriento sempre aos meus pacientes que realizem simultaneamente o acompanhamento com um reumatologista, que poderá avaliar corretamente quando o tratamento alopático pode ou não ser dispensado.

RA: Quais as doenças reumatológicas nas quais a acupuntura e a medicina chinesa são mais eficazes?

Dra. Helena: O que deve ser avaliado é muito mais o paciente do que a doença em si. Como já foi dito, dois pacientes com a mesma doença, podem ter diagnósticos diferentes na MTC e, portanto, tratamento e evolução diversos. Doenças onde haja comprometimento permanente da articulação, como por exemplo a osteoartose, a acupuntura jamais poderá reverter o que já foi destruído. De qualquer modo, ela ainda assim poderá diminuir os sintomas (dor, restrição do movimento, etc.).

RA: Qual o papel de regimes e mudanças alimentares nas doenças reumatológicas segundo a medicina chinesa?

Dra. Helena: As mudanças alimentares fazem parte das prescrições da MTC. A alimentação é fundamental na saúde e no bem estar global. Observa-se que uma boa alimentação é capaz de aumentar a energia vital e diminuir as “obstruções energéticas” nas síndromes Bi. Contudo, a alimentação é apenas uma das ferramentas da MTC. A fitoterapia e a acupuntura são igualmente importantes. No caso de dores, a acupuntura é a mais eficaz das técnicas terapêuticas da MTC, por outro lado, o aumento da energia vital é melhor controlado pela dieta e pela fitoterapia. A dieta, segundo a MTC, segue princípios muito diferentes daqueles praticados no ocidente. Cada alimento, além das suas propriedades nutricionais tem características energéticas, como temperatura e sabores que determinam um movimento energético.

Exemplos:

Alimentos quentes: alho, canela, carne de carneiro, gengibre, salsinha.

Alimentos mornos: frango, carne de vaca, tomilho.

Alimentos frescos: pepino, folhas verdes, frutas em geral como pêra e maçã.

Alimentos frios: caqui, leite, laticínios, queijos.

Alimentos neutros: cenoura, abóbora, batata, batata-doce.

Sabor ácido ou azedo: movimento da Madeira (Fígado e Vesícula Biliar).

O sabor ácido, como o do vinagre tem a capacidade de retrair, contrair, pois ele é adstringente. Ajuda na formação dos músculos e é equivalente a pequenas moléculas ou tijolos que constroem o organismo.

Alimentos ácidos: ameixa, alho-porró, frango amarelo, trigo, levedo.

Sabor amargo: movimento do Fogo (Coração e Intestino Delgado)

O sabor amargo tem o movimento de endurecer, como um alimento que é tostado ou grelhado, ou mesmo conservado por longo tempo.

Alimentos amargos: damasco, carne de carneiro ou de cabra, aspargo, alcachofra, trigo sarraceno, arroz selvagem, arroz longo, cogumelo Shitake, café e chá torrados.

Sabor doce: movimento da Terra (Baço-Pâncreas e Estômago)

O sabor doce é predominante na maior parte dos alimentos, pois é a Terra a grande responsável pela nutrição do organismo e, portanto, o sabor doce irá auxiliar esta função.

Alimentos doces: melão, jujuba chinesa, manga, milho, quinua, carne de vaca, abóbora, batata, mandioca, batata doce, beterraba, cenoura, couve chinesa

Sabor picante: movimento do Metal (Pulmão e Intestino Grosso)

O sabor picante tem a capacidade de dispersar a energia, levando-a para o exterior. Ele tonifica os Pulmões e a Pele e auxilia na prevenção de gripes e resfriados.

Alimentos picantes: cebola, alho, condimentos e ervas aromáticas, carne de coelho, aveia, cevada.

Sabor salgado: movimento da Água (Rins e Bexiga)

O sabor salgado é capaz de reunir a energia e, portanto, tonifica os Rins e melhora a vitalidade.

Alimentos salgados: leguminosas, soja, feno grego, alface cozida, molho de soja, carne de porco, espinafre, peixes e frutos do mar, castanha, germe de trigo.

Sabores tóxicos: Cada um dos cinco sabores pode ser em um extremo sutil ou em outro tóxico. Um sabor tóxico é aquele que é tão extremo, que acaba lesando o órgão em vez de tonificá-lo.  Para o ácido encontramos o próprio vinagre, para o amargo o tabaco, o café, para o doce o açúcar da cana ou mesmo o aspartame, para o picante o álcool, para o salgado os alimentos muito salgados ou conservados no sal. Esses alimentos devem ser evitados por fazerem mal a saúde.

A combinação desses princípios é feita individualmente para cada paciente, levando em consideração quais órgãos e meridianos estão mais ou menos desequilibrados e, portanto, quais sabores e temperatura intrínseca podem ajudar a restituir o equilíbrio dinâmico e sutil do corpo.

RA: Quais outras mudanças de estilo de vida devem ser preconizadas nas doenças auto-imunes?

Dra. Helena: Além da dieta, dos fitoterápicos e da própria acupuntura, o paciente portador de doenças auto-imunes deve em primeiro lugar afastar-se de fatores que predisponham ao seu adoecimento como: excesso de trabalho e estresse, poucas horas de sono, ritmo de vida irregular sem respeito aos horários de sono, refeições e descanso, exposição constante a viroses ou outras doenças, exposição constante a emoções intensas como preocupação, raiva, medo, etc. Pode-se ainda orientar o paciente a praticar atividade física, que em muito ajuda a circulação do Qi e ajuda a melhorar o nível energético nas atividades específicas (Qi Kun, Tai Chi Chuan, Yoga), que visam a melhora da respiração. Segundo a MTC, após o nascimento e até a morte, o ser humano está sempre desgastando sua energia vital. As únicas maneiras de repor relativamente essa energia é através da alimentação e da respiração. Evitar os fatores de adoecimento ajuda a diminuir o desgaste global da energia.

Dra. Helena Campiglia

Consultório em Pinheiros, SP

Tel: 3813-5080