Autoimunidade e Doenças Autoimunes

1/08/2010

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Autoimunidade e Doenças Autoimunes

O que é:

Autoimunidade é uma condição onde o sistema de defesa (sistema imune) de uma pessoa (ou animal) agride “por engano” estruturas do corpo desta pessoa, como faria com micróbios invasores. Hoje se sabe que algum grau de autoimunidade acontece na maioria de nós sem, no entanto, causar doença. Doença Autoimune acontece quando esta autoimunidade se perpetua ou intensifica a ponto de causar dano nos tecidos do corpo, e sintomas.

 

Quais são as Doenças Autoimunes?

Existem mais de 80 doenças onde a autoimunidade têm um papel importante. Em muitas delas existe também um agente infeccioso desencadeando a autoimunidade, como um vírus ou uma bactéria. São exemplos de doenças autoimunes: febre reumática, doenças do colágeno (lúpus, esclerodermia, dermatomiosite, polimiosite, artrite reumatóide, síndrome de Sjogren, doença mista do tecido conectivo), síndrome do anticorpo antifosfolípide, púrpura trombocitopêntica idiopática, púrpura trombocitopêntica trombótica, vasculites (arterite temporal, Takaiassu, Cogan, poliarterite nodosa, poliangiite microscópica, Wegener, Buerger, Behçet), sarcoidose, policondrite recidivante, espondilite anquilosante, doença inflamatória intestinal (Chron e retocolite ulcerativa), psoríasis, pênfigo, alopecia areata, vitiligo, diabetes mellitus, gastrite atrófica/anemia perniciosa, doença celíaca, cirrose biliar primária, colangite esclerosante, hepatite autoimune, síndrome de Goodpasture, Tireoidites (Graves, Hashimoto), Nefropatia por IGA, doença de Guillain-Barré, esclerose múltipla, miastenia gravis, narcolepsia, entre outras.

 

O que causa autoimunidade.

Ainda há muito que aprender neste campo. Abaixo alguns dos fatores que se acredita estar relacionados à autoimunidade:

A)    Infecções e mimetismo molecular: desde os tempos mais remotos os seres vivos interagem uns com os outros de maneiras positivas e negativas. Os seres maiores e mais complexos foram obrigados a se defender de parasitas, fungos, vírus e bactérias que tentassem invadi-los. Aos poucos foram desenvolvidos mecanismos de defesa inicialmente simples, mas a posteriori muito sofisticados. Uma característica fundamental para o funcionamento do sistema de defesa é o discernimento entre estruturas do próprio organismo e dos agentes infecciosos externos ou tumores. Estes agentes, por sua vez, elevam muito sua chance de sobrevivência quando conseguem se camuflar dentro do organismo invadido. O resultado desta “queda de braço” são microorganismos cada vez mais parecidos com estruturas do hospedeiro e sistemas imunes cada vez mais sofisticados. O sistema imune de mamíferos como o homem estão entre os mais sofisticados deste planeta. No entanto a semelhança entre moléculas dos agentes e estruturas do próprio corpo pode fazer com que a reação imunológica contra o invasor atinja também o indivíduo. Um exemplo clássico é a febre reumática. Nela a reação imune montada contra uma proteína do Streptococcus (proteína M) agride também estruturas do coração.

B)    Amplificação de epítopos: epítopos são as partes de uma estrutura que são reconhecidas pelo sistema imune. Uma lesão inicialmente pequena expõe novas estruturas ao sistema imune, que antes estavam escondidas. Usando o exemplo da febre reumática, a reação montada inicialmente contra a proteína M leva a danos no coração, que por sua vez leva a exposição de componentes do tecido cardíaco normalmente escondidos. A reação que se segue é maior e mais difícil de ser parada.

C)    Predisposição genética: A predisposição a doenças autoimunes é em parte controlada pela genética. Gêmeos idênticos têm os mesmos genes, mas nem sempre têm a mesma doença. Parentes de pessoas com doenças autoimunes, no entanto geralmente têm maior probabilidade de desenvolver doenças autoimunes. Em muitas das doenças autoimunes se conhece genes cuja presença propicia maior chance de desenvolvimento. Na febre reumática o gene IL1-RA foi relacionado a maior chance de desenvolvimento da forma grave de cardite (Cytokine. 2010 Jan;49(1):109-13).

D)    Acaso: Um número quase infinito de moléculas existe ou pode vir a existir. Como “construir” um sistema imune capaz de reconhecer tantas moléculas diferentes a partir de um número finito e comparativamente pequeno de genes? O problema foi resolvido da seguinte forma: os anticorpos e outras estruturas dos glóbulos brancos que reconhecem as estruturas são formados ao acaso. Os genes que codificam estas estruturas sofrem em cada célula um número exagerado de “mutações” e rearranjos (regiões hipervariáveis). Como o produto final é imprevisível, as células de defesa são testadas (antes do nascimento no timo). Se reconhecem estruturas do próprio corpo ou se nunca reconhecem nada, tendem a ser destruídas. Se reconhecem e adequadamente combatem organismos invasores são amplificadas e guardadas. Desta forma, mesmo gêmeos idênticos têm sistemas imunes diferentes, e isso é determinado pelo acaso e pelas infecções e moléculas com que eles têm contato durante sua vida.

E)     Teoria da Higiene: doenças autoimunes e alérgicas crescem em ritmo maior do que o populacional nos dias de hoje. Mas isso ocorre muito mais em países desenvolvidos do que nos subdesenvolvidos. Dentro dos países ricos, isso também acontece mais entre populações da cidade do que do campo e, em países com uma grande disparidade social como o Brasil, entre as classes ricas e pobres. A teoria mais aceita hoje para explicar esse fenômeno é a teoria da higiene. Segundo ela, o nosso sistema imunológico foi desenhado para ser desenvolvido em vigência de seguidos estímulos infecciosos e antigênicos. A vida moderna, com toda sua higiene, vacinas, alimentos pasteurizados e esterilizados não permitiria a “educação” correta do sistema imune, que ficaria mais sujeito a cometer erros. Além dos dados epidemiológicos, a principal evidência de que isso seja verdade vem de um interessante estudo com uma cepa específica de camundongos que normalmente desenvolve doenças autoimunes em 30% das vezes. Neste trabalho eles formam criados em ambiente absolutamente estéril, comeram comidas estéreis e eram paridos por parto cesárea. Com essa higiene em excesso, 50%, e não 30, desenvolveram doenças autoimunes.

 

Como diagnosticar uma doença autoimune?

Como discutido acima, existem muitos diferentes tipos de doenças autoimunes. Virtualmente todos os órgãos e tecidos do corpo podem ser acometidos. Estas doenças frequentemente se parecem umas com as outras e também com doenças infecciosas e outras não mediadas pelo sistema imune. Na maioria das vezes não há um único exame capaz de fornecer o diagnóstico, cuja conquista deve ser baseada em uma história bem tirada e sistemática exclusão de hipóteses. A reumatologia é a área da medicina que estuda doenças inflamatórias e, a maioria das doenças autoimunes cursa com processos inflamatórios. Se você não estiver certo de que especialista procurar, um reumatologista pode ser um bom começo.

 

Quais são os tratamentos e cuidados que se deve tomar?

Para cada uma das doenças autoimunes existem fatores predisponentes, cuidados e tratamentos específicos.

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  1. Sou portadora de esclerose multipla e tenho baixa de leucocitos e linfocitos, é comum? OBRIGADA.

    Dr. Pedro Ming
    pedroming@reumatologiaavancada.com.br
    Cara Ana Lucia, esclerose múltipla não é uma condição tratada por reumatologistas. Eclerose Cutânea Sistêmica (esclerodermia) sim, e pode cursar com leucopenia e linfopenia.

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